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Os 10 mandamentos de quem vive em república

Por Letícia Queiroz

1 – Estar preparado psicologicamente para uma mudança total (Bruna Alemida, 21 anos, Turismo)
2 – Saber se adaptar a mudanças (Isabela Costa, 21 anos, Arquivologia)
3 – Ser flexível (Fiel Ribeiro, 22 anos, Engenharia Elétrica)
4 – Saber conviver em grupo (Michelle, Souza 21 anos, Turismo)
5 – Tentar entender as pessoas, para que elas possam te entender também (Fernanda Azevedo, 18 anos, Turismo)
6 – Procurar pessoas que combinem com você (Yuri Moreira, 19 anos, Engenharia Ambiental)
7 – Ir com a disposição de fazer amigos (Vinícius Gomes, 23 anos, Odontologia)
8 – Não ser uma pessoa “cri-cri”. (Luana Paula, 23 anos, Engenharia Elétrica)
9 – Não ser uma pessoa muito fresca (Felipe Siqueira, 22 anos, Jornalismo)
10 – Aproveitar. República é uma experiência única na sua vida (Thalita da Silva, 23 anos, Engenharia Agrícola)

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Respeitando o espaço alheio

“Ser humilde para respeitar os espaços das pessoas, mas não se calar” – Vinícius Gomes, 23 anos, Odontologia

Por Letícia Queiroz

Algumas repúblicas seguem regras, já em outras reina a lei do bom senso. Não existem mais o “pode ou não pode fazer” dos pais: agora os estudantes são responsáveis pelas suas ações e podem pagar caro por elas. Luana Paula, estudante de Engenharia Elétrica, conta dois casos que ocorreram em sua moradia: “Duas meninas, de Odontologia, perturbavam muito a garota que tomava conta da república, a locatária. Então, um dia ela simplesmente colocou as coisas delas para fora do apartamento. Nem pediu que elas saíssem. E elas tiveram que se virar”. Outro problema na república mista foi quando o pai de uma das meninas faleceu: “A gente achou que por isso ela surtou, fazia da nossa vida um inferno. Até que chegou ao ponto de a gente falar ‘você sai e deixa o apartamento ou a gente vai sair e te deixar na mão’. Ela saiu.”

Muitas vezes a vida de liberdade e independência pode se transforma num inferno. Pessoas de hábitos, comportamento e gostos diferentes tem que aprender a se respeitar, aceitar as diferenças e lidar com as adversidades. O jovem tem que encarar a experiência como uma aprendizagem. Pois no futuro ambiente de trabalho existirão pessoas chatas, controladoras e invejosas, e não será possível simplesmente trocar de empresa ou abandonar o emprego.

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E como fica a limpeza?

“Aqui, quem se incomoda com a sujeira, vai e limpa” – Carla Kropf, 24 anos, Engenharia Elétrica

Por Letícia Queiroz

A limpeza da casa é o motivo da maioria das briguinhas entre moradores de uma república. Personalidades diferentes se confrontam nesta questão, pois existem aqueles metódicos com arrumação e aqueles que não ligam para desordem. Na república de Carla Kropf, estudante de Engenharia Elétrica, moram sete pessoas e a única regra é a limpeza semanal do banheiro, dividida entre ela e mais três pessoas. Luana explica a situação: “Aqui ninguém é dono de casa, a maioria estuda, trabalha e vai para casa nos finais de semana. Então, a gente tenta manter o apartamento habitável. Até porque também não temos dinheiro para pagar uma faxineira toda semana”.

Numa república masculina, localizada no Ingá, a regra é cada um por si. Não existe nenhuma arrumação, são coisas jogadas pelos cantos, um banheiro de empregada interditado e uma extensão do interruptor da cozinha até o outro canto da casa, só que ligada pelo estabilizador do computador que ficou no meio da sala. Isso não é tudo: “Nós tivemos uma plantação de cogumelos embaixo da pia”, declara Felipe Siqueira, estudante de Jornalismo. Na verdade, a falta de limpeza criou fungos debaixo da pia. Demorou bastante até alguém tomar uma solução. “Não conseguimos mais tirar o cogumelo de lá. Então, acabamos tirando a tábua debaixo da pia”, completa Luã Marinatto, 21 anos, do mesmo curso.

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Um espaço para muita gente

“A vizinha de baixo não dá bom dia para a gente” – Felipe Siqueira, 22 anos, Jornalismo

Por Letícia Queiroz

Existe uma grande especulação imobiliária ao redor dos campi da UFF. Os aluguéis são, em média, entre R$800,00 a R$1.200,00, por isso torna-se necessário para o estudante morar com cinco, seis, até sete pessoas para dividir as despesas. Quem não gosta da concentração de jovens num apartamento, na maioria das vezes, são os síndicos e os vizinhos.

Na república masculina composta por Felipe Siqueira, Fred Cursino, Luã Marinatto, Rodrigo Simon e Yuri Moreira a bagunça predomina. Felipe afirma que a maior dificuldade assim que se mudaram foi a de “que o prédio se adaptasse” a eles. Os meninos quase foram expulsos duas vezes e receberam várias reclamações em apenas três meses de locação. Contudo, após dois anos o comportamento mudou: “No início a gente só fazia festa. Mas aquela empolgação inicial de morar sozinho passou”, explica Felipe, estudante de Jornalismo. “A gente amadurece...”, completa Rodrigo, do curso de Cinema e Audiovisual.


Atualmente, às terças-feiras ocorre a Noite do Pôquer, que se tornou um evento da república. Eles chamam os amigos e ficam jogando e bebendo a noite toda. Além disso, as partidas do jogo Winning Eleven, do Playstation 2, acontecem quase que o dia inteiro. A casa está sempre cheia e, por isso, os vizinhos sempre ouvem barulho vindo 12° andar. Ele até criaram uma musiquinha para república: “E ninguém cala o 1208/ jogando winning eleven, bebendo cerveja e comendo miojo/ O 1208 eu moro em você/ Eu incomodo o prédio inteiro e eles acham que eu sou maconheiro./ Viva o 1208! Acima de tudo puteiro.”

No apartamento de Luana Paula e Vinícius Gomes as pessoas são mais tranquilas: “Esse grupo é bem misturado, tem gente que já está se formando, ninguém é calouro para só fazer farra. Temos que acordar cedo para trabalhar”, explica Luana. Mas de vez em quando ocorre uma reuniãozinha com o pessoal do condomínio. “Mas nada que incomode o prédio todo”, destaca Vinícius.

Renata Sartori, estudante de Produção Cultural, veio de São Paulo e mora em um pensionato há dois anos em Icaraí. Ela divide a casa com 25 meninas, e não pensa em morar numa república. Renata diz que prefere as vantagens de morar no pensionato: “Não tenho que me preocupar com contas, cada uma paga sua parte e pronto”. Por outro lado, homem não pode entrar, nem pai e nem irmão, e não pode fazer nenhum tipo de festa. “A dona da casa, que mora do lado, não gosta nem de festinha de aniversário para uma das meninas da casa”, conta Renata.


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Liberdade e independência

“Eu sempre fui muito presa e agora eu tenho mais liberdade” – Natacha Fernandes, 22 anos, Engenharia Agrícola

Por Letícia Queiroz

Liberdade é a palavra que melhor define o que passa na cabeça dos jovens que acabaram de sair da casa dos pais. Destes, alguns ainda resistem à decisão dos filhos, mas a necessidade fala mais alto. Isabela Costa, 21 anos, mora em Padre Miguel, zona oeste do Rio de Janeiro, e teve que se mudar para Niterói por causa do longo caminho e falta de transporte de casa para faculdade. “Ninguém na minha casa acreditava que eu ia aguentar ficar longe. Mas depois que viram que eu consegui, passaram a respeitar a minha decisão”, completa Isabela.

Independência é o segundo pensamento dos jovens ao sair de casa. Michelle Souza, estudante de Turismo, conta como foi essa mudança: “Nós nos tornamos mais responsáveis, tivemos que resolver vários problemas na casa, pagar as contas, consertar chuveiro queimado, trocar uma lâmpada. Então, a gente adquire uma responsabilidade que antes não tinha”.

Para Natacha Fernandes, estudante de Engenharia Agrícola, de Volta Redonda, a liberdade veio junto com a independência: ”A melhor coisa é poder sair à hora que eu quero e não precisar dar satisfação a ninguém. Agora eu não dependo tanto dos meus pais, porque eu também trabalho”.

Após cinco anos morando numa república, Luana Paula entende que: “Assim que começamos a morar sozinho, não temos nenhuma dificuldade. Tudo é novo para gente. E tudo que é novo na nossa idade é bacana. Só com o tempo é que tudo vira mesmice, monotonia, as briguinhas começam a irritar”, explica Luana.

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A busca pelo local

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“No apartamento nada é decorado, mas é tudo que a gente precisa” – Bruna Almenida, 21 anos, Turismo


Por Letícia Queiroz

A primeira etapa é encontrar o lugar ideal para viver. Os estudantes têm duas opções: juntar os amigos e montar uma república ou procurar uma vaga numa já estabelecida. As amigas Bruna Almeida, Fernanda Azevedo, Flávia Marques e Michelle Souza se conheceram durante o período de trote cultural do curso de Turismo e tornaram-se amigas. A partir disso surgiu a ideia de montarem uma república, já que as quatro moravam nas zonas oeste e norte do Rio de Janeiro. O problema foi encontrar o lugar. “A gente começou a procurar batendo de porta em porta em todos os prédios para perguntar se tinha algum apartamento. Alguns davam com a porta na nossa cara”, conta Bruna.

No entanto, a procura valeu à pena. No início de 2008, as quatro meninas e mais a recente integrante, Isabela Costa, do curso de Arquivologia moram num espaçoso apartamento com dois quartos, perto do Clube Canto do Rio, na Rua Visconde do Rio Branco, 701. Porém, a enorme sala possui apenas três escrivaninhas espalhadas e dois sofazinhos, e em cima de uma delas uma pequena televisão da década de 1960.

Elas não possuem telefone nem acesso à internet. A principal ordem é economizar.

Cada república é formada ao gosto dos moradores. Num apartamento menor habitam, no bairro do Ingá, Carla Kropf, Fernanda Duarte, Fiel Ribeiro, Luana Paula, Natacha Fernandes, Thalita da Silva e Vinícius Gomes, e lá história é bem diferente. Carla Kropf, aluna de Engenharia Elétrica, mora com toda essa galera há três meses, já Luana mora no apartamento há cinco anos, no qual já existia uma república antes. A república já teve de cinco a até oito moradores. Atualmente, os sete residentes são dos mais diversos lugares do Brasil.

Fiel, Luana e Vinícius se formam esse semestre (2009.1), mas preveem vida longa à república de estudantes, “Eu acho que as pessoas vão se responsabilizar pelo apartamento como a gente se responsabilizou. Eu quero que a república continue”, declara Luana de Engenharia Elétrica.

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Repúblicas: o desafio de viver em grupo

Por Letícia Queiroz

Repúblicas são estabelecimentos de moradia temporária, geralmente durante a faculdade, onde estudantes dividem a casa, quartos e tarefas durante o convívio. Mas a realidade não é tão simples como a definição acima sugere. Cada palavra citada carrega muitas questões por traz do seu simples sentido. O principal significado é que o poder absoluto dos pais acabou e agora quem governa são os próprios estudantes.

Faculdade é o local de aprender a desenvolver uma profissão, conhecer pessoas diferentes, fazer novos amigos e passar por novas experiências. Mas, para alguns estudantes, sair de casa também faz parte do processo. Todos que passaram por esta situação garantem que a experiência é inesquecível. Entre boas ou más recordações, o que realmente importa são as situações vividas, a enriquecedora convivência e as histórias para contar.

Geralmente, grande parte dos estudantes da Universidade Federal Fluminense vem de outras cidades do Rio de Janeiro, outros estados, ou, até mesmo, de outros países. Os estudantes aumentam a população de Niterói, tanto que é perceptível a diminuição do movimento pelas ruas nos finais de semana e durante as férias. As repúblicas são famosas em Niterói e representam mais de 30% da carteira de locação de algumas imobiliárias, segundo um pesquisa feita pelo jornal O Fluminense, em 2008.

Jovens dos mais diversos cursos da UFF, cujas idades variavam entre 18 e 24 anos, nos contaram os diversos problemas, dilemas, responsabilidades e vantagens de se viver numa república.

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